sábado, outubro 09, 2004

Certezas não são Fatos!

Finalizando a trilogia dos posts sobre certos aspectos do pensamento que nos move, tem aquela célebre frase do nosso velho amigo Nietzsche que diz que as convicções são prisões. Certas dúvidas, quando contínuas, acabam nos tirando o chão e, por isso, estamos acostumados a compartimentar as coisas, rotular em certo ou errado, bom ou mau. Então, não é raro nos apegarmos a respostas atraentes ou fascinantes para aquelas perguntas que volta e meia incomodam nosso tutano.
Isso acontece por um motivo muito simples: o ser-humano odeia a incerteza. Cada vez mais, observamos a dificuldade das pessoas em lançar mão de um “talvez...” no que tange a assuntos polêmicos. Temos vários exemplos ao longo da História, da incapacidade de aceitar o novo e o diferente. Há alguns séculos, poucos aceitariam que algo mais pesado que o ar pudesse levantar vôo e se auto-sustentar. Ou mesmo que a Terra não fosse achatada como uma pizza!
Assim, as “minhas” crenças são as corretas, o meu partido político é o mais ético e o que tem as melhores idéias, o som que eu curto ouvir dá de 10 x 0 no seu e por aí vai...
O fato é que essa rigidez de pensamento acaba gerando desde um simples deboche até demonstrações de radicalismo, intolerância e fanatismo. A certeza acaba se tornando uma âncora, uma garantia de que as nossas escolhas são quase sempre as melhores possíveis e, portanto, até certo ponto, um mecanismo de fuga.
Acontece que há muito poucas coisas das quais podemos ter absoluta certeza. Até mesmo de que o espaço e o momento que estamos experienciando é o que imaginamos. É só lembrar do mote básico de Matrix, Show de Truman, A Vila...
Descartes partiu do princípio de que "penso, logo existo". Mas, até que provem o contrário, uma pedra não pensa, um abajur também não. Será que estes objetos não existem? E que tal aquela desafiadora frase filosófica de origem chinesa (Confúcio, se não me falha a memória): "Serei uma pessoa sonhando que é uma borboleta, ou uma borboleta sonhando que é uma pessoa?". Esses temas sempre ofereceram um prato cheio para a Fenomenologia.
Aproveitando um pouco a analogia do texto anterior, as idéias rígidas são como teias, para as quais somos atraídos e, uma vez aderidos, fica muito difícil de nos desvencilharmos.
Lógico que há algumas certezas positivas: de que o bem deve prevalecer, a vida vale a pena, dividir as coisas é melhor que subtrair etc. O lance é saber discernir quais certezas nos fazem estagnar e quais nos impulsionam.
As armadilhas normalmente são atraentes