quinta-feira, janeiro 06, 2005

O que vc tem feito da vida?

Devo informar que o papo começou no Barroso. Se vc pegou o bonde andando, dá um pulo no link ao lado.
O Felipe estava perguntando sobre o que se faz pra mudar certas coisas, quebrar os tais grilhões que nos prendem a esta crescente dependência do vil metal à medida que nos vemos cada vez mais obrigados a estabelecer rotinas, dívidas e tudo mais que não queremos, simplesmente para sobreviver... Dizia ele no penúltimo parágrafo :" E se eu tenho que trabalhar, não dá pra se livrar dos 80% do seu tempo que vc passa fazendo o que não quer."
O que se segue entre aspas foi o meu comentário (que acabou ficando extenso demais):
"Bom, não é fácil. Mas vc pode começar montando uma banda sem maiores compromissos. Se estiver difícil reaver aquele pique de 10 anos atrás, escreva um livro. Se não der, continue deixando registros do seu pensamento para os que puderem conferir (neste blog mesmo). Não importa o que vc faça, desde que faça por que vc quer, mesmo que seja uma só coisa! Se o nosso "modus vivendi" não nos permite prescindir do trabalho escravo, que pelo menos, não nos tolha a consciência do que somos e podemos ser! Apesar da náusea causada pela constatação de que talvez tenhamos adquirido tal consciência tarde demais, ainda encontro em mim aquela velha inconformidade de quando tinha 18 anos. Ela está lá e sempre estará enquanto nos recusarmos a acreditar que é só isso... Claro, temos limitações, mas quem vai nos dizer quais são elas? continua "
Tem o refrão de um rock (dos longínquos anos 80) do Plebe Rude que pergunta: "Com tanta riqueza por aí, onde é que está, cadê sua fração?"
O fato é desde muito cedo sofremos uma espécie de programação (vulgo lavagem cerebral), para darmos valor a determinadas coisas que farão a sociedade conseguir permanecer exatamente como é. Todas aquelas histórias que ouvimos quando crianças sobre ilhas do tesouro, reinos encantados e belas adormecidas, acabam servindo para construir uma personalidade que acredita que a vida é crescer, aprender uma profissão, trabalhar, achar o amor da sua vida e casar (isso, sempre regado à esperança de um dia se ganhar na loteria e sair dessa vidinha miserável que levamos!).
Não que algumas dessas coisas seja má em si. O que acho digno de um filme de terror B dos anos 60 é o que quase ninguém aceitar que vc queira algo diferente disso. Desde os 18 anos eu ouço pessoas criticando o fato de eu usar cabelos compridos e determinadas roupas que, segundo elas, não combinam com alguém respeitável. E quer saber? O comprimento dos cabelos não importa. Mas enquanto continuar incomodando não vou cortar(a não ser que eu canse)!
Eu já sou um cara adulto, mas penso duas vezes antes de dizer: "isso é só besteira de adolescente!". Claro que jovens fazem merda direto. Mas muito daquela "rebeldia" (uma palavra inventada pelos mais velhos para desmoralizar qualquer tentativa de revolução), tantas vezes na história da humanidade foi responsável pelos grandes saltos de qualidade e conquistas. Se vcs pararem pra pensar, alguns dos grandes personagens da história eram pessoas que se recusavam a se adequar com o "status quo".
Disseram a um deles:" Moço, esqueça essa história de que a Terra é redonda, não seja ridículo!" E a outro: " Garoto, você jamais será grande coisa nesta vida!" Bem, o tal garoto mudaria os rumos da física com sua teoria da Relatividade e a forma de nosso planeta dispensa apresentações...
Tentarei resumir (peço que me perdoem pelo discurso panfletário). Se você pensa "pequeno", se o seu objetivo são as coisas pequenas e palpáveis que lhe ensinaram ser valores caros (carro do ano, poder ir aos melhores restaurantes, ser rico até o cu fazer bico etc.) , então tudo é questão de vc dar sorte com herança, batalhar duro para estar do outro lado da balança (não por coincidência o lado mais pesado, da maioria, fica embaixo...) ou chamar uns "amigos" pra dar um rolé...
Ou então você pode pelejar para que, ao menos a futura geração tenha uma vida melhor, mais justa e igualitária do que a sua. Não é preciso inventar a roda. Pode ser uma palavra de encorajamento a alguém ou a um grupo, um gesto, um pensamento. A mudança começa com cada um , apesar de não termos muitas respostas (se nem sabemos bem formular as perguntas ainda) o primeiro passo é enxergar o que queremos e o que precisamos mudar.
Se você , antes de dormir, revê tudo que fez durante o dia e se questiona: "Fiz o melhor?" já é um grande passo!
Pessoal, ninguém tem culpa da cultura que herdou. O mundo já estava enrolado quando chegamos aqui. O mínimo que podemos fazer é não contribuir para piorar a situação. Acima de tudo, sustento que fugir da alienação e do entorpecimento cotidiano é a melhor saída.
Meu amigo, Felipe, faz isso com seu humor mordaz, Michael faz isso com suas campanhas e causas, Bruna com seus questionamentos e cada um de vcs à sua maneira.
Sou doublé de desenhista, músico amador, amante da filosofia, poeta de versos esdrúxulos e trabalho nas horas vagas para sustentar esses caprichos.
Como dizia o velho filósofo: "ninguém veio ao mundo a passeio!" Mas também não dá pra dizer que foi pra trabalhar da forma como estamos acostumados!
Ficam algumas perguntas: Quais as suas ideologias? Você leva a vida que sempre sonhou? Se não, o que falta pra isso?