domingo, março 06, 2005

Correndo mais que a razão

Ela havia chegado havia pouco tempo naquela pequena cidade do interior. Tornara-se viúva muito jovem e encontrava-se prestes a ter um bebê. Amarga e impaciente, nada mais importava para ela no mundo a não ser o filho que se aproximava, único resquício de tempos mais felizes.
Certa noite, teve certeza de que chegara o momento de dar à luz a criança que esperara por aqueles longos meses. Cambaleando, entrou o mais depressa possível no carro e deu a partida.
O único posto médico local ficava a uns 3 quilômetros dali e para lá ela rumou a toda velocidade. Só então se deu conta de que havia esquecido os óculos em casa. Mas, não importava, queria apenas chegar rapidamente ao seu destino.
No caminho, um velho homem aguardava ao lado de seu carro enguiçado na margem direita da estrada. Contudo, como a mulher esquecera dos óculos e a estrada estava escura , apesar dos faróis acesos, em sua ânsia de chegar, atropelou aquela pessoa que, instantes atrás, fazia sinal para que ela parasse.Achou tratar-se de algum animal que atravessava a estrada e prosseguiu determinada. Só quando já estava muito em cima, notara que era um homem . Sem tempo hábil para parar, mas o suficiente para ver o terror estampado naquele rosto antes de atingí-lo em cheio.
Então, chegando perto do posto médico, uma forte pontada fez com que desviasse olhar por uns instantes e batesse no portão de madeira do mesmo. Algumas pessoas vieram ajudá-la. Agora, ferida e prestes a ter filho, foi levada para dentro de uma sala e deitada na cama.
Disseram-lhe para ter calma que tudo se resolveria, pois o doutor, o único médico na região, já estava a caminho. Olhando para o quadro na parede, mesmo sem posse das suas lentes, constatou para seu desespero que era o retrato do médico, o mesmo homem que atropelara momentos antes. Alguém poderia tentar lhe salvar a criança, mas ela sobreviveria?
Deixo o final em aberto, pois, realmente não importa tanto o que aconteceu depois, mas devemos refletir e interiorizar, se julgarmos útil e necessário, quanto ao fato de que, por vezes, deixamos de dar importância a coisas que acontecem ao nosso redor, passando a nos concentrar apenas em nossos umbigos.
Quantas vezes, cegos pelo nosso imediatismo, não atropelamos pessoas ou situações, achando que tínhamos algo mais urgente para resolver? Há situações em que pensamos que estamos ganhando tempo, mas estamos simplesmente perdendo oportunidades preciosas em nossas vidas de ajudar o próximo e a nós mesmos, por vezes, selando o próprio destino?
Então, porque não fazer como os Cavaleiros que outrora diziam Ni e agora, após muita reflexão
e sanduíches de arenque, dizem : Ec-ectapang?
Como já dizia aquela peituda da Pamela Anderson: sempre é tempo de mudar pra melhor!